18/08/2026 às 07h00min - Atualizada em 18/08/2026 às 07h00min

Quando tudo parece substituível, os relacionamentos também correm esse risco?

Vivemos em uma época em que quase tudo pode ser substituído. Trocamos de celular quando surge um modelo mais moderno.

Agna Ariane

Agna Ariane

Psicóloga, Terapeuta de Casais e Especialista em Terapia Cognitiva Sexual

Mudamos de emprego em busca de novas oportunidades. Reinventamos rotinas, mudamos de cidade e, com poucos toques na tela, encontramos novas pessoas para conversar (app de relacionamentos e redes sociais).
A facilidade de escolher nunca foi tão grande. Mas, junto com ela, surge uma pergunta inevitável: será que, sem perceber, também passamos a enxergar os relacionamentos como algo substituível?


Não acredito que isso aconteça por falta de amor. Acredito que acontece porque aprendemos a viver em uma cultura que valoriza a rapidez, a novidade e a satisfação imediata. Somos constantemente incentivados a acreditar que sempre existe uma opção melhor esperando logo adiante. E essa lógica, que funciona para o consumo, nem sempre funciona para os afetos.


Relacionamentos não amadurecem na velocidade de um clique. Eles exigem tempo, convivência e disposição para atravessar fases que nem sempre são leves. Exigem conversas difíceis, frustrações, diferenças e a capacidade de permanecer mesmo quando o encanto inicial dá lugar à realidade.


Na prática clínica, observo que muitos casais não chegam ao fim porque deixaram de se amar. Muitas vezes, eles chegam ao limite porque perderam a capacidade de enfrentar juntos os desconfortos inevitáveis de uma relação. Em uma cultura que oferece tantas possibilidades, o desconforto pode ser confundido com a ideia de que "talvez exista alguém mais compatível". Mas será que existe mesmo um relacionamento sem frustrações?


Construir intimidade é um processo lento. Ela não nasce da afinidade perfeita, mas da confiança que se fortalece quando duas pessoas aprendem a enfrentar as imperfeições sem transformar cada conflito em um motivo para partir. Talvez o maior desafio dos relacionamentos contemporâneos não seja encontrar alguém, mas desenvolver a maturidade necessária para construir uma história quando a novidade deixa de sustentar a relação.


Nenhum relacionamento amadurece sem atravessar desconfortos. Permanecer não significa aceitar o inaceitável ou insistir em relações que ferem, mas compreender que vínculos saudáveis também passam por momentos de dúvida, frustração e reconstrução. É justamente nesses momentos que o amor deixa de ser apenas um sentimento e se transforma em uma escolha consciente.


Se aprendemos que tudo pode ser substituído, talvez a pergunta mais importante não seja se o amor mudou, mas se nós ainda estamos dispostos a permanecer quando ele deixa de ser novidade e passa a exigir presença, compromisso e construção.


Será que ainda estamos aprendendo a amar... ou estamos desaprendendo a permanecer? Mas essa é uma conversa para a próxima semana.

 

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