26/10/2026 às 07h00min - Atualizada em 26/10/2026 às 07h00min

Lula venceu. Mas de quem é a vitória?

Quando alguém que votou em Lula diz “a vitória é nossa”, uma pergunta merece espaço: nossa de quem? Dos eleitores que escolheram o candidato? Do partido? Ou do Brasil?

Eduardo Rosa

Eduardo Rosa

Edu Rosa é apresentador, comunicador e empreendedor, criador do Top Rebouças e especialista em conteúdo, mídia e posicionamento.

Como comunicador, acredito que essa discussão começa em uma palavra pequena, mas poderosa: “nossa”. Ela aproxima quem está dentro do grupo. Dependendo de como é usada, também pode deixar do lado de fora quem fez outra escolha.

É compreensível que o eleitor comemore a vitória da candidatura que apoiou. Houve uma decisão, uma expectativa e, em muitos casos, tempo dedicado a convencer outras pessoas. Dizer “nós vencemos” é uma maneira de expressar essa participação. Não significa, necessariamente, desejar que o restante do país perca.

Mas existe uma diferença entre celebrar uma escolha e tratar o país como propriedade dos vencedores.

A vitória nas urnas pertence à candidatura que recebeu mais votos. A responsabilidade de governar alcança todos os brasileiros. Inclusive quem votou no adversário, anulou o voto, votou em branco ou não compareceu.

Essa distinção deveria orientar tanto o discurso de quem vence quanto a comemoração de quem apoiou.

Quando o “nós” precisa de um “eles”

Na linguagem da disputa, as divisões são claras: nosso candidato, nossa campanha, nossos argumentos. Do outro lado, os adversários.

O problema aparece quando essa lógica continua organizando todas as conversas depois da eleição. A frase “nosso candidato ganhou” pode se transformar em “agora vocês vão ter que aceitar”, dita como provocação. Nesse momento, a comemoração passa a funcionar como uma demonstração de superioridade sobre outros cidadãos.

E cidadãos não se tornam menos brasileiros porque perderam uma eleição.

Também é preciso cuidado para não atribuir a todos os eleitores de Lula a mesma intenção. Uma postagem provocativa não representa milhões de pessoas. A mesma cautela vale para quem votou em qualquer outro candidato. Criticar uma forma de falar é diferente de presumir o caráter de um grupo inteiro.

A pergunta mais útil, portanto, é: o que estamos fazendo com a nossa vitória quando falamos sobre ela?

Estamos comemorando uma expectativa de futuro ou buscando humilhar quem discordou?

A vitória do Brasil precisa aparecer na vida das pessoas

Dizer que “o Brasil venceu” é uma mensagem de união. Mas também é uma afirmação que precisa ser sustentada por resultados.

Quem votou no vencedor espera que sua escolha produza melhorias. Quem votou no adversário pode ter dúvidas legítimas sobre o caminho escolhido. Nenhum dos dois precisa abandonar suas convicções no dia seguinte à votação.

Por isso, considero precipitado exigir que todo brasileiro sinta a vitória de um candidato como uma vitória pessoal.

O benefício nacional de um governo será percebido no cotidiano: nas oportunidades de trabalho, na renda, na segurança, na saúde, na educação e no respeito aos direitos. É nessa experiência que uma vitória eleitoral pode ganhar um significado mais amplo.

O eleitor pode dizer “eu ajudei a eleger”. O governante precisa demonstrar “eu governo também para quem não me elegeu”.

A comunicação de quem vence tem outra responsabilidade

Durante a campanha, o candidato busca votos. Depois da eleição, sua comunicação precisa reconhecer que há um país inteiro a representar.

Isso exige atenção às palavras, aos gestos e até ao tom das comemorações. Uma liderança pode reconhecer o esforço de seus apoiadores e, ao mesmo tempo, dirigir-se com respeito a quem escolheu outro projeto.

A expressão “meus eleitores” tem lugar no agradecimento. Já “os brasileiros” precisa ganhar lugar nas decisões.

Essa responsabilidade também alcança quem comunica a política: jornalistas, apresentadores, influenciadores e cidadãos nas redes sociais. Podemos registrar a celebração sem alimentar a ideia de que uma parte da população conquistou o direito de constranger a outra.

Discordância continuará existindo. Cobrança também. E cobrar um governo não pode ser tratado como falta de respeito ao resultado eleitoral.

Afinal, é uma vitória deles ou do Brasil?

Quem votou em Lula pode, legitimamente, comemorar a vitória da sua escolha. Isso não lhe dá a posse do país nem torna o outro eleitor um intruso.

Ao mesmo tempo, chamar o resultado de “vitória do Brasil” expressa uma esperança que o exercício do governo precisará confirmar.

Como comunicador, vejo nessa discussão uma oportunidade de melhorar a conversa pública. Podemos celebrar sem humilhar, discordar sem desumanizar e reconhecer o resultado sem abrir mão da fiscalização.

O voto encerra uma disputa e entrega uma responsabilidade.

A frase “a vitória é nossa” cabe na comemoração. O compromisso “o governo é para todos” precisa caber em cada dia do mandato.

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