28/10/2026 às 07h36min - Atualizada em 28/10/2026 às 07h36min

Quando um deseja mais do que o outro

Um quer. O outro não. Um procura aproximação. O outro recua. Com o tempo, o que poderia ser apenas uma diferença na experiência do desejo começa a ganhar outros significados.

Agna Ariane

Agna Ariane

Psicóloga, Terapeuta de Casais e Especialista em Terapia Cognitiva Sexual

Quem procura pode começar a pensar: “Ele não me deseja mais.” “Será que deixei de ser atraente?” “Por que ela nunca toma a iniciativa?”


Quem recua pode sentir: “Parece que nunca faço o suficiente.” “Toda demonstração de carinho termina em uma expectativa de sexo.” “Será que não posso simplesmente não estar com vontade?”


E, pouco a pouco, o sexo deixa de ser apenas uma possibilidade de encontro e passa a carregar o peso da rejeição, da cobrança e da insegurança. Na sexualidade dos casais, é possível que os parceiros apresentem níveis diferentes de desejo. Essa diferença pode ser passageira ou persistente, variar conforme as fases da vida e mudar ao longo do relacionamento.


O problema nem sempre é desejar diferente. Às vezes, é não conseguir conversar sobre essa diferença sem transformar o outro em culpado. Quando a frequência sexual desejada não coincide, é comum que cada pessoa interprete a situação a partir da própria experiência. 

 
Quem deseja mais pode sentir falta de intimidade, questionar a própria atratividade ou entender a recusa como sinal de desamor. Quem deseja menos pode sentir que precisa corresponder para evitar conflitos, decepcionar o parceiro ou provar que ainda ama.


Assim, um começa a procurar mais, na tentativa de recuperar a proximidade. O outro passa a evitar aproximações, com receio de que qualquer carinho seja interpretado como uma promessa de sexo. E o que começou como uma diferença de desejo pode se transformar em um ciclo: quanto mais um insiste, mais o outro se sente pressionado; quanto mais o outro se afasta, maior pode ser a insegurança de quem procura.


O sexo, que poderia aproximar, passa a ser um lugar onde os dois se sentem sozinhos.  É importante compreender que sentir desejo não é uma obrigação, assim como amar alguém não significa estar sempre disponível sexualmente. Ninguém precisa ultrapassar os próprios limites para preservar um relacionamento.


O consentimento não deixa de ser necessário dentro de uma relação estável. E carinho, intimidade e parceria não deveriam ser condicionados à disponibilidade sexual. Mas reconhecer esse direito não significa ignorar o sofrimento que a diferença pode provocar.
Quem se sente rejeitado também precisa encontrar espaço para falar sobre a própria dor. Quem se sente pressionado precisa poder expressar seus limites sem ser acusado de não amar ou de não se importar.


As duas experiências merecem ser escutadas, sem que o sentimento de uma pessoa se transforme em uma obrigação para a outra. Por isso, talvez a questão não seja descobrir quem está certo, quem deseja o suficiente ou quem precisa mudar. Talvez seja compreender o que o sexo representa para cada um.
Para uma pessoa, pode ser uma forma importante de sentir conexão, afeto e pertencimento. Para outra, o desejo pode depender de condições que nem sempre estão presentes: descanso, tranquilidade, privacidade, segurança emocional ou simplesmente disposição naquele momento.


Essas possibilidades não explicam todos os casos, mas mostram por que perguntar apenas “quantas vezes fazemos sexo?” pode ser insuficiente para compreender o que está acontecendo.
É preciso conseguir conversar sobre frequência, iniciativa, prazer, expectativas e limites. Falar sobre o que faz falta sem transformar a conversa em acusação. Escutar a frustração do outro sem assumir que é preciso ceder sexualmente para resolvê-la. E, principalmente, construir formas de intimidade que não carreguem sempre a expectativa de uma relação sexual.


Isso não significa que a diferença desaparecerá ou que todo casal encontrará uma frequência ideal comum. Significa que é possível buscar acordos que respeitem os dois, sem pressão, culpa ou apagamento das necessidades individuais.
Quando esse diálogo se torna difícil, a terapia de casal ou o acompanhamento com um profissional especializado em sexualidade pode ajudar a compreender os padrões que se estabeleceram e encontrar outras maneiras de lidar com as diferenças.
Porque o desejo não pode ser exigido. Mas o sofrimento que surge em torno dele merece atenção. Uma relação não precisa que os dois desejem da mesma forma o tempo todo. Precisa que exista espaço para compreender essas diferenças sem transformar o corpo de um em resposta às expectativas do outro.


E talvez seja importante perguntar: estamos conseguindo conversar sobre nossa vida sexual ou só falamos dela quando alguém se sente rejeitado, cobrado ou frustrado? Essa pergunta pode abrir um caminho para além da disputa entre quem quer mais e quem quer menos. Um caminho em que os dois possam voltar a se conhecer, compreender o que mudou e descobrir o que ainda pode ser construído.


Se o desejo pode ser diferente, mudar e até desaparecer por períodos, será que um casal pode aprender a reencontrar o caminho de volta? Na próxima semana, vamos conversar sobre a possibilidade de reconstruir a intimidade e cultivar novas formas de desejo dentro de uma relação que já atravessou tantas mudanças.

 

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