09/09/2026 às 07h00min - Atualizada em 09/09/2026 às 07h00min

O que aproxima e o que afasta?

O relacionamento não termina em uma grande briga. Às vezes, ele vai se perdendo aos poucos.

Agna Ariane

Agna Ariane

Psicóloga, Terapeuta de Casais e Especialista em Terapia Cognitiva Sexual

Nas próximas semanas, vamos olhar para os relacionamentos por diferentes ângulos: a comunicação, os conflitos, a intimidade, o desejo e as escolhas que aproximam ou afastam duas pessoas.
Não para encontrar fórmulas para fazer uma relação dar certo, mas para compreender melhor o que acontece entre duas pessoas quando elas tentam construir uma história juntas.

Quando um relacionamento termina, é comum procurarmos um motivo.
Uma traição, uma grande discussão ou uma decisão inesperada. Algo que explique quando e por que duas pessoas que um dia escolheram estar juntas chegaram ao fim.
Mas nem sempre existe um momento exato.
Às vezes, o afastamento começa muito antes do término, em coisas que parecem pequenas demais para chamar atenção.
Uma conversa adiada. Um carinho que vai ficando raro. Um ressentimento que não é elaborado. Uma pergunta que deixa de ser feita ou que, quando feita, já não carrega um interesse verdadeiro pela resposta: “Como você está?”
A rotina também pode contribuir para esse processo. Trabalho, filhos, compromissos, contas e cansaço vão ocupando os espaços do dia. O casal continua dividindo a casa, organizando a vida e resolvendo o que precisa ser resolvido.
Por fora, tudo funciona. Por dentro, alguma coisa começa a faltar.
A relação continua existindo, mas a conexão pode ir diminuindo. Duas pessoas podem continuar juntas e, ainda assim, deixar de se encontrar emocionalmente. Não necessariamente porque deixaram de amar, mas porque, aos poucos, deixaram de prestar atenção uma na outra.
É justamente nesse lugar que podemos pensar na negligência emocional.
Ela nem sempre é intencional. Muitas vezes, aparece na repetição de pequenas ausências: sentimentos deixados para depois, necessidades minimizadas e uma relação que só recebe atenção quando surge um problema.
O casal continua cuidando de tudo o que precisa ser resolvido, mas deixa de cuidar daquilo que precisa ser sentido.
Até que alguém pensa:
“Nós estamos juntos, mas eu não me sinto mais visto por você.”
Talvez seja por isso que alguns casais cheguem à terapia dizendo:
“Não aconteceu nada grave.”
E, ainda assim, exista muita dor.
Porque uma relação também pode se enfraquecer pelo que deixamos de fazer.
De conversar.
De demonstrar afeto.
De criar tempo para estar juntos.
De continuar conhecendo quem está ao nosso lado.
Por isso, talvez a pergunta não seja apenas:
“O que está nos afastando?”
Mas também:
“O que estamos deixando de fazer que poderia nos aproximar?”
Relacionamentos precisam de cuidado antes de precisarem de reparo.
E talvez alguns não comecem a terminar quando o amor acaba.
Talvez comecem a se perder quando deixamos de nos encontrar.
Então, fica a pergunta:
Quando foi que vocês deixaram de se encontrar dentro da própria relação?
Talvez a resposta esteja justamente nas conversas que deixaram de ter.
E é por aí que seguimos na próxima semana: quando falar deixa de ser uma tentativa de compreender o outro e passa a ser apenas uma disputa para ter razão.

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